11 de março de 2011

Mais uma visão sobre o Carnaval

Eu sei, eu sei: o carnaval já passou, a quarta-feira de cinzas também e eu continuo a falar sobre a "festa da carne", não é? Sim, continuo. Persisto por saber que há muitas teorias por aí, para tratar de entender a festa popular brasileira. Popular? Uns acham que sim, outros não; uns acreditam que vale a pena a festança, outros não e por aí vai a discussão em torno do carnaval.

Lembra-se do vídeo postado aqui, mostrando o comentário pessoal da jornalista Rachel Sheherazade? É por isso que continuo a tocar no assunto, por que há muito assunto a ser discutido. Quanto mais visões diferentes acerca do carnaval, melhor para formarmos a nossa opinião a respeito.

Abaixo, um texto do Arnaldo Jabor, publicado no jornal "O Estado de S. Paulo", dia 08/03/2011, Caderno2, apontando visão diferente a da jornalista Sheherazade.


"O delirante carnaval da democracia"

[...] nos últimos dias, vendo as massas pulando nas ruas de Salvador, Recife e Rio, fiquei pensando: como é que pode? O que faz milhares de foliões se jogarem nas ruas como estouros de boiadas, o que será que provoca tanta fome de samba, de riso, de porres, de sexo em flor? Este ano, há blocos que congregam mais de 400 mil participantes, 400 mil dançando na orla do Rio, em um delirante comício de felicidade.[...].

[...] O carnaval oficial tinha virado um produto de mercado, um merchandising de bicheiros, uma festa para ‘voyeurs’, para turistas, inclusive para brasileiros – turistas de si mesmos.[...].

[...] Era impossível a alegria popular com 2.000% de inflação ao ano, na década de 80. Creio mesmo que essa enchente de povo se forma a partir da estabilização da economia em 94 e da maré em nossa direção, com o capital internacional dirigido aos países emergentes. Aos poucos, o País retomou sua autoestima e, especialmente no Rio, ela cresce nos últimos tempos, com o melhor controle da criminalidade e com o fim dos governos sórdidos que jogaram a cidade no buraco.[...].

[...] nossas massas encheram a cidade. Sem comparações esquemáticas, sente-se o renascimento de um desejo gregário, até de contato físico entre as pessoas, uma explosão de liberdade e de encontro que nos leva a concluir que houve uma democratização da convivência, um irresistível desejo de existir em comunidade.

Há mesmo um secreto desejo de viver e morrer numa fervente multidão-formigueiro, onde todos virem um grande ‘um’. Creio também que isso reflete o movimento atual da vida social que se organiza cada vez mais em rede [...]. Agora a vida social tem uma dinâmica interna, intramuros, congregadora e não apontando para um futuro feliz ou infeliz. Não mais utopias e nem mesmo distopias, que são finalismos ao avesso. Não. Agora o movimento é no presente, é centrípeto, cerrando contatos e intimidades. Ouso dizer que os blocos e as multidões do carnaval de hoje têm o desenho de um ‘Facebook’ de carne viva [...].

[...] Assim como o Círio de Nazaré congrega milhares pela esperança e fé, como um martírio triunfal, assim como o futebol congrega torcidas pela vitória de uma camisa, o carnaval de hoje me parece a conseqüência da democracia e do crescimento econômico do País.[...].

[...] Somos um povo esquisito, todo nu, pulando como malucos para espanto risonho do mundo ‘civilizado’. Muito bem. Pois, acho o carnaval nossa marca e nossa grandeza. Como pode o mundo achar o carnaval uma loucura, este mundo irracional de Kadafis e ‘tea parties’, de bombas ‘clean’ contra bombas sujas? É melhor entender o Brasil através do carnaval do que ver o carnaval como um desvio da razão. O carnaval nos vê. Sua razão sacana nos ensina mais que estas ‘moralidades críticas’. [...] O carnaval mostra a matéria de que somos feitos. [...].

[...] Nosso carnaval mostra que o Inconsciente brasileiro está à flor da carne. [...] Talvez o carnaval seja uma doença salvadora, uma epidemia de ‘desbunde’ de que o mundo precisa, por só conhecer a guerra, a velocidade e o mercado cruel.

Na razão do carnaval existe algo mais além da imoralidade; há uma santidade nesta explosão de carne que não se explica. [...] A ‘razão perversa’ é a razão do carnaval. Não a perversão como ‘pecado’, mas como mímica de uma liberdade, como a busca de uma civilização ‘não civilizada’, de um retorno a uma animalidade perdida e, no entanto, pulsante.

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Fernanda Amylice disse...

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